sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dom Fenando, o Infante Santo, Príncipe, Cavaleiro (+1443), 05 de Junho

O Beato Fernando de Portugal, dito o Infante Santo (29 de Setembro 1402 - 5 de Junho 1443[1]), foi um príncipe de Portugal da Dinastia de Avis. Fernando era o oitavo filho do rei João I de Portugal e de sua mulher Filipa de Lencastre, o mais novo dos membros da Ínclita Geração.
Fernando cedo se mostrou interessado na questão religiosa e, ainda muito jovem, foi ordenado Grão Mestre da Ordem de Avis pelo seu pai. Por ser o irmão mais novo, não tem acesso, como os mais velhos, a tantas riquezas, e intenta pôr-se ao serviço do Papa, do Imperador, ou de outro soberano europeu para ganhar prestígio e prebendas. Por motivação dos irmãos mais velhos acaba por desistir, virando as suas atenções para a luta em Marrocos, da qual lhe poderia vir imensa fortuna.
Assim, em 1437 participa numa expedição militar ao Norte de África, comandada pelo irmão mais velho o Infante D. Henrique, mas com o voto desfavorável dos outros infantes, Pedro, Duque de Coimbra e João, Infante de Portugal e do próprio Rei D. Duarte que, vítima de estranhos pressentimentos, só muito a contragosto consentiu na partida expedição. O Rei teria entregue ao Infante D. Henrique uma carta com algumas recomendações úteis, que foram por algum motivo ignoradas. A campanha revelou-se um desastre e, para evitar a chacina total dos portugueses, estabelece-se uma rendição pela qual as forças portuguesas se retiram, deixando o infante como penhor da devolução de Ceuta (conquistada pelos portugueses em 1415). No entanto, o Infante pareceu ter pressentido o seu destino, pois ao despedir-se do seu irmão, o Infante D. Henrique, lhe terá dito "Rogai por mim a El-Rei, que é a última vez que nos veremos!"
A divisão na metrópole entre os defensores da entrega imediata de Ceuta, ou a sua manutenção, conseguindo por outras vias (diplomática ou bélica), o resgate do infante, foi coeva da morte de D. Duarte (que morreu vítima da epidemia de peste que contaminou o Reino e, ao que parece, de desgosto pelo fracasso da expedição a Tânger e do cativeiro de D. Fernando), o que impediu um desfecho favorável à situação.
Fernando foi, entretanto, levado para Fez, sendo tratado ora com todas as honras, ora como um prisioneiro de baixa condição (sobretudo depois de uma tentativa de evasão gorada, patrocinada por Portugal). Daí escreve ao seu irmão D. Pedro, então regente do reino, um apelo, pedindo a sua libertação a troco de Ceuta. Mas a divisão verificada na Corte em torno deste problema delicado e diversas ocorrências ocorridas com os governadores da praça-forte levam a que D. Fernando assuma o seu cativeiro com resignação cristã e morra no cativeiro de Fez em [[1443] - acabando assim o problema da devolução ou não de Ceuta por se resolver naturalmente. Pelo seu sacrifício em nome dos interesses nacionais, viria a ganhar o epíteto de Infante Santo.
Pesará sempre a lembrança da morte trágica de D. Fernando, e com a maioridade de Afonso V, seu sobrinho, desejoso de feitos guerreiros contra o Infiel na África, sucedem-se as tentativas de conquista, voltadas sempre para Tânger, a fim de vingá-lo - primeiro em 1458 (acabando por desistir, dada a aparente inexpugnabilidade da cidade, e voltando-se para Alcácer Ceguer), depois nas "correrrias" de 1463-1464, enfim a tomada de Arzila em 1471, embora uma vez mais o objectivo fosse Tânger. De resto, após a tomada de Arzila, os mouros de Tânger, sentindo-se desprotegidos (pois eram a única praça muçulmana no meio de terra de cristãos) e abandonados pelo seu chefe (que a troco do reconhecimento, por Afonso V, do título de rei de Fez, concedia ao monarca português o domínio de todo a região a Norte de Arzila, na qual Tânger se encontrava), deixaram a cidade, fato que muito custou ao rei português, por se ver assim impossibilitado de fazer pagar cara a morte de D. Fernando, seu tio.
Por meio desse mesmo tratado concluído com o agora rei de Fez, os restos mortais do Infante, que se achavam naquela cidade, passaram para as mãos dos portugueses, tendo sido solenemente transferidos para o Mosteiro da Batalha, onde hoje repousam ao lado dos pais e irmãos, na Capela do Fundador. O seu culto religioso foi aprovado em 1470.

Referências:
1.  Página no Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico de Portugal de João Romano Torres (em português).
Ver: "Blessed Ferdinand" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês).

Ver também: São Bonifácio de Mainz

Fontes:

quinta-feira, 3 de junho de 2010

São Francisco Caracciolo, Sacerdote, Co-fundador da Congregação dos Frades Menores (1563-1608), 04 de Junho

Nasceu em 13 de outubro de 1563 no Castelo de sua família na Villa Santa Maria, Abruzzi, Itália, como Ascanio Pisquizio. Nascido na nobreza, ele era parente de Santo Thomas de Aquino e do Príncipe de Nápoles. Gostava de caçada. Certa vez aos 22 anos de idade ele curou um leproso com seu toque e tomou este fato como um sinal de sua vida. Vendeu todos os seus  bens, deu o dinheiro para os pobres foi estudar teologia em Nápoles em 1585. Ordenado em 1587. Entrou para a Confraria dos Hábitos Brancos da Justiça (Bianchi della Giustizia) e pregava para os prisioneiros.
Com João Agostinho Adorno fundou a Congregação dos Frades Menores, passando a cuidar dos doentes e prisioneiros. Receberam a aprovação do Papa Sixtus V em 1º de julho 1588 e do Papa Gregório XIV em 18 de fevereiro de 1591 e do Papa Clemente VIII em 1º de junho de 1592.    
Escolhido superior da Congregação em Nápoles em 89 de marco de 1592 ele fez questão de fazer também as tarefas mais humildes da casa como varrer os corredores. Notável pelo seu trabalho junto aos pobres, era um fazedor de milagres e tinha o dom da profecia, e era um pregador muito popular em sua região, curava várias doenças apenas com sua benção e o sinal da cruz.
O Papa Paulo V desejava que ele fosse Bispo mas recusou repetidamente, citando a o voto da Congregação que proibia aceitar qualquer alta posição na Igreja. No final de sua vida ele renunciou de suas funções e passou seu tempo em oração e a se preparar para a morte.
Várias vezes foi encontrado embaixo da escada da casa, em êxtase. No dia em que morreu, uma hora antes do amanhecer ele levantou-se e gritou: “Para o Céu” e logo depois  faleceu. Era o dia 4 de junho de 1608 quando Francisco morreu em Agnone, Itália. Suas relíquias estão parte em Nápoles e parte em San Lorenzo in Lucina, Roma. Foi beatificado pelo Papa Clemente XIV, em 1769, e canonizado em 24 de maio de 1807, pelo Papa Pio VII. É padroeiro da Associação dos cozinheiros italianos, escolhido em 1838. 
  
Ver também: Santa Clotilde, Rainha da França

Fontes:

Santos Mártires de Uganda (†1885, †1886, †1887), 3 de Junho

 Bouquet espiritual: «Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão.» (Lc 13, 24)

Estes santos habitavam uma região central da África chamada Uganda. Ninguém ali jamais havia pronunciado o Nome de Deus, e o mal reinava através da escravidão, das feitiçarias e do canibalismo. Um dia, dois sacerdotes cristãos, Pe. Lourdel e Pe. Livinhac, lá desembarcaram. Apresentaram-se ao rei Mutesa, que acolheu-os pacificamente e concedeu-lhes o direito de ali permanecerem.
Os devotados missionários faziam-se tudo para todos, prestando-lhes todos os serviços possíveis. Apenas sete meses após o início do catecumenato, eles designaram algumas pessoas que consideravam já preparadas para receberem o batismo. O rei Mutesa se interessava pelo que os sacerdotes pregavam, mas logo suas pregações acenderam a cólera dos feiticeiros locais - por inveja – e dos árabes, que comercializavam os negros escravizados.
Pressentindo a perseguição, os Pes. Lourdel e Livignac batizaram os nativos já preparados e se retiraram para o Sul do Lago Vitória com alguns jovens negros libertos. Como a varíola dizimava a população desta região, os missionários batizaram um grande número de crianças que estavam à beira da morte.
Após três anos de exílio, o rei Mutesa morreu. Seu filho, Mwanga, favorável à nova religião, chamou de volta os “Padres brancos” ao país. Em 12 de julho de 1885, a população ugandesa, que não havia esquecido nenhum dos inúmeros benefícios realizados pelos missionários, acolheu-os triunfalmente. Os nativos, que haviam sido batizados antes de partir, já haviam batizado outros. O apostolado mostrava-se florescente. O ministro do novo rei ofendeu-se com o sucesso dos cristãos, sobretudo de um dos principais chefes, Joseph Mukasa, que combatia sua imoralidade.
Amigo e confidente do rei, superiormente dotado, ele poderia tornar-se o segundo homem em importância do reino, mas sua única ambição era a de cumprir os ensinamentos de Cristo. O ministro persuadiu o jovem rei de que os cristãos queriam tomar o seu trono; os feiticeiros insistiam para que os pretensos conspiradores fossem prontamente punidos com a morte. Mwanga cedeu a essas falsas acusações e mandou queimar Joseph Mukasa em 15 de novembro de 1885.
«Quando tiver matado aquele lá», disse o rei, «todos os outros ficarão com medo e abandonarão a religião dos Padres.» Contrariando essas previsões, as conversões não pararam de se multiplicar. Na noite seguinte ao martírio de Joseph, doze catecúmenos pediram a graça do batismo. Cento e cinco outros catecúmenos foram batizados na semana que se seguiu à morte de Joseph, dentre os quais estavam onze dos futuros mártires.
Em 25 de maio de 1886, seis meses após a terrível morte de Joseph, ao retornar da caça, o rei mandou chamar um de seus pajens chamado Denis, de quatorze anos. Interrogando-o, Mwanga ficou sabendo que ele estudava o catecismo com Muwafu, um jovem batizado. Repleto de raiva, matou o rapaz com sua lança envenenada. Os carrascos concluíram o serviço no dia seguinte pela manhã, 26 de maio, dia em que o déspota declarou oficialmente a perseguição aberta aos cristãos.
No mesmo dia, Mwanga mandou torturar e mutilar o jovem Honorat e prendeu ferros ao pescoço de um neófito chamado Jacques, que outrora havia tentado convertê-lo à fé cristã. Em seguida, mandou reunir os pajens cristãos e mandou que os levassem para que fossem queimados vivos na fogueira de Namugongo. Jacques morreu nessa fogueira, em companhia de outros mártires, em 3 de junho de 1886, festa da Ascensão.
 “Amarraram os jovens entre 18 e 25 anos”, escreveu o Pe. Lourdel; “as crianças eram igualmente amarradas, e tão apertadas umas junto às outras que não podiam caminhar sem se esbarrar. Vi o pequeno Kizito rir desses encontrões como se brincasse com seus companheiros.” Eram ao todo quinze católicos. Três seriam agraciados no último minuto. Conta-se oficialmente vinte e dois mártires católicos canonizados, cujos martírios ocorreram entre os anos de 1885 e 1887.
O grupo de condenados marchava para o lugar do suplício quando encontraram um nativo chamado Pontien. “Você sabe rezar?”, perguntou o carrasco que, diante da resposta afirmativa de Pontien, cortou-lhe a cabeça com a lança. Era o dia 26 de maio de 1886. Ao cair da noite, os mártires foram imobilizados. O filho do carrasco, que se encontrava entre as vítimas, foi conduzido à força para casa. Após uma longa e extenuante caminhada, repleta de maus tratos, os cativos chegaram, em 27 de maio, a Namugongo. Cerca de cem carrascos organizaram os prisioneiros em grupos.
Os cruéis carrascos trabalharam até o dia 3 de junho a fim de juntar toda a madeira necessária para alimentar a fogueira. Os prisioneiros tiveram então que esperar seis longos dias de privações e sofrimentos, noites de frio e insônia, mas também de orações ainda mais ardentes, antes que a morte viesse coroar seu heróico combate. O martelar frenético dos tan-tans que se faziam ouvir durante toda a noite do dia 2 de junho indicava aos mártires, que definhavam amarrados em suas celas, que o imenso braseiro de seu supremo holocausto logo seria aceso.
Charles Lwanga, magnífico atleta de um vigor pouco comum, a quem o rei havia confiado um grupo de pajens – aos quais ele havia ensinado secretamente o catecismo – foi separado de seus companheiros, a fim de ser queimado à parte, de um modo particularmente atroz. O carrasco acendeu a fogueira de modo a queimar somente os pés de sua vítima. “Tu me queimas”, disse Charles, “mas é como se tu derramasses água para me lavar!” Quando as chamas atacaram a região do coração, antes de morrer, Charles murmurou: “Meu Deus! Meu Deus!”
Como o grupo dos mártires avançava para a fogueira, ouviu-se um grito de triunfo: Nwaga, o filho do chefe dos carrascos, conseguira fugir de casa para, também ele, se lançar ao martírio. Saltava de alegria por se encontrar na companhia de seus amigos. Primeiro, bateram-no com um cetro; depois, foi enrolado com os outros em varas de cana para tornarem-se, num instante, presas das chamas.
Após queimar-lhes os pés, eles receberam a promessa de uma libertação imediata se renunciassem à oração. Mas esses heróis não temiam a morte de seus corpos e, diante de sua recusa categórica em cometer apostasia, começaram a acender a fogueira. Sobre o crepitar do braseiro e os clamores dos carrascos sanguinários, a oração dos santos mártires se elevava calma, ardente e serena: “Pai Nosso, que estais nos Céus...” Perceberam que eles estavam mortos quando pararam de orar.
O último dos mártires chamava-se Jean-Marie. Obrigado a se esconder durante um longo tempo, cansado de sua vida errante, ele desejou ardentemente morrer por sua fé. Apesar dos conselhos de seus amigos, que tentavam dissuadi-lo deste projeto, Jean-Marie resolveu apresentar-se ao rei Mwanga. Ninguém mais o viu, pois em 27 de janeiro de 1887, o rei mandou decapitá-lo e lançá-lo numa lagoa.
A devoção popular aos mártires de Uganda tornou-se universal após São Pio X proclamá-los Veneráveis, em 16 de agosto de 1912. A beatificação ocorreu em 6 de junho de 1920, e receberam a honra da canonização em 18 de outubro de 1964.

Extraído de Marteau de Langle de Cary, 1959, tomo II, pg. 305-308 – África Viva (Vivante Afrique), No 234 - Bimestral - Set-Out/1964.

Tradução e Adaptação:
Gisèle Pimentel

Ver também: Beato João XXIII e São Juan Diego

Fontes:

terça-feira, 1 de junho de 2010

São Potino, Bispo, Sainte Blandine, Leiga e demais companheiros, Mártires de Lyon (+ 177), 02 de Junho

São Potino foi o primeiro bispo de Lyon. Tinha vindo da Ásia e se formara na Escola de São Policarpo, Bispo de Esmirna, por quem foi enviado à Gália (atual França).
Potino, após ter conquistado um grande número de almas para Jesus Cristo, foi preso no reinado de Marco Aurélio. Estava com a idade de noventa anos, fraco e doente; no entanto, seu zelo apostólico e o desejo pelo martírio sustentavam suas forças e sua coragem. Conduzido ao tribunal em meio às injúrias da população pagã, foi interrogado pelo governador, que lhe perguntou qual era o Deus dos cristãos: “Vós O conheceríeis se fôsseis digno Dele”, respondeu o Bispo. A estas palavras, a multidão furiosa precipitou-se sobre ele; os que estavam mais próximos chutaram-no e esmurraram-no, sem respeito algum por sua idade avançada. O ancião conservava a muito custo um sopro de vida quando foi jogado na prisão, onde morreu logo depois.
A narrativa do martírio dos companheiros de São Potino é uma das mais impressionantes páginas da história da Igreja dos primeiros séculos. O diácono Santus suportou, sem fraquejar, todas as torturas, ao ponto em que seu corpo tornou-se um monte disforme de ossos e de membros esmagados e de carne calcinada; ao fim de alguns dias, milagrosamente curado, ele estava forte novamente, para sofrer novos suplícios. Ele não queria dizer aos carrascos nem o seu nome, nem a sua pátria, nem a sua condição de vida; a todas as perguntas que lhe faziam, ele respondia: “Eu sou cristão!” Este título era tudo para ele. Por fim, entregue às feras, foi massacrado no anfiteatro.
Maturus teve que enfrentar os mesmo suplícios que o santo diácono; foi açoitado, padeceu na cadeira de ferro incandescente e, finalmente, foi devorado pelas feras. O médico Alexandre que, na multidão de espectadores, apoiava com gestos a coragem dos mártires, foi agarrado e também lançado aos suplícios.
Atala, enquanto tinha sua carne grelhada na cadeira de ferro, vingava os cristãos das odiosas e injustas acusações que lhes eram feitas: “Não são, dizia ele, os cristãos que devoram os homens! São vocês! Quanto a nós, nós evitamos tudo o que é mau!” Perguntaram-lhe como se chamava Deus: “Deus, disse ele, não tem nome como nós, mortais.”
Restavam ainda o jovem Ponticus, que tinha quinze anos, e Blandina, uma escrava, que haviam testemunhado a morte cruel de seus irmãos. Ponticus foi o primeiro a juntar-se aos mártires que o haviam precedido. Blandina, resplandecente de alegria, foi torturada com uma particular crueldade, uma vez que fora atada a um touro, que a lançou diversas vezes ao ar. Por fim, teve a cabeça cortada.

Abade L. Jaud, Vida dos Santos para cada dia do ano (Vie des Saints pour tous les jours de l'année), Tours, Mame, 1950.

Tradução e Adaptação :
Gisèle Pimentel

Ver também: Santos Marcelino e Pedro, Mártires

Fontes:

segunda-feira, 31 de maio de 2010

São Panfílio de Cesaréia, Sacerdote, Mártir (+ 308), 1º de Junho

Panfílio nasceu em Bêrut, na Fenícia (atualmente Beirute, Líbano). Após concluir brilhantes e profundos estudos nas escolas de Alexandria, foi ordenado padre da Igreja de Cesaréia. Ele foi um dos belos exemplos da aliança entre a filosofia e o dogma cristão. Ninguém melhor que ele soube unir o amor à Ciência a essas virtudes evangélicas que constituem a personalidade dos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo.

Nosso santo montou uma enorme biblioteca composta dos melhores autores, sobretudo religiosos. O alvo de seus estudos e pesquisas era somente a defesa da fé. Deve-se a este homem ilustre a correção da versão das Sagradas Escrituras dita Septuaginta. Foi de sua preciosa biblioteca que o historiador Eusébio, discípulo de Panfílio, tirou todos os documentos de que precisou para escrever a história dos primeiros séculos.
A todos os seus trabalhos intelectuais, Panfílio adicionava exercícios de piedade e de penitência. Seu único bem eram seus livros. Ele havia distribuído aos pobres todo o seu rico patrimônio e vivia na solidão, repousando do peso de seus dias árduos em meio às orações da noite.
O sábio piedoso estava preparado para os santos combates de Cristo. Preso como um dos principais Doutores cristãos no tempo das perseguições do imperador Maximino Daïa, Panfílio compareceu diante do governador. As promessas e as seduções que lhe foram feitas (para que abandonasse a fé cristã) não tiveram sucesso algum; seria preciso, então, lançar mão de ameaças e torturas. Panfílio permaneceu inabalável. Rasgaram-lh os lados com garras de ferro; foi tão terrivelmente flagelado que os carrascos viram-se obrigados a transportá-lo para a prisão imerso em sangue e semi-morto. O governador esperava que as chagas do mártir fechassem para poder recomeçar o suplício, quando ele mesmo tornou-se vítima da ferocidade do imperador, que o condenou à morte devido aos seus crimes e devassidão, o que o havia tornado odioso aos olhos de todos.
Sob o novo governador, Panfílio permaneceu algum tempo esquecido na prisão, e aproveitou-se disso para escrever algumas de suas obras de sabedoria. Havia já dois anos que ele sofria pela fé, quando foi condenado junto com diversos outros cristãos. A execução aconteceu numa noite, e o corpo permaneceu até o dia seguinte no mesmo local do suplício. Porém nenhum animal se aproximou para devorá-lo, e os fiéis puderam dar-lhe uma sepultura honrosa. Foi no ano de 308 que o filósofo cristão, discípulo de São Justino, de São Luciano e de tantos outros, consumou o seu martírio.

Abade L. Jaud, Vida dos Santos para todos os dias do ano (Vie des Saints pour tous les jours de l'année), Tours, Mame, 1950.

Tradução e Adaptação:
Gisèle Pimentel

Ver também: São Justino

Fontes :